Encontraponto - o Blog do Luciano Carvalho


Reveses

            Nos últimos dois meses passei por dois reveses que me abalaram: um assalto e um roubo. No assalto, me levaram uma jaqueta de que eu gostava muito, que eu ganhara de presente de uma amiga muito especial num aniversário (isso foi muito triste), algum dinheiro (ainda vai) e meu celular (dor de cabeça grande, por causa dos contatos que estavam anotados somente nele...; a gente não aprende rápido!).

            Um mês depois desse assalto, invadiram meu apartamento enquanto eu estava fora e levaram coisas bem mais importantes ainda. Não foi uma limpa geral, mas um roubo de bens fáceis de vender logo: meu computador, meus CDs e DVDs e umas coisinhas mais, amontoadas nas minhas próprias malas (fiquei sem malas, imagine!). Afora a violência, sentida no ato de chegar em casa e encontrá-la arrombada e totalmente revirada, com coisas tiradas da minha geladeira e consumidas pela metade aqui e acolá, sabendo quase com certeza que o ladrão premeditara o ataque, sendo alguém que mora no meu prédio, ou quase isso, ou talvez mesmo algum conhecido que eu mesmo tenha já trazido para casa, lembrei sem querer do meu chará Huck, e da polêmica por ele levantada por sua reação ao roubo do seu relógio. Não pude evitar a conclusão: “Ei, chará! Como você é bundão, hein! Vai chorar em outro país!” Embora não haja aspectos que não fossem negativos, a pior perda foi o computador, pois muitos trabalhos, músicas e textos, afora os contatos guardados no Outlook, ainda não tinham backup. Isso ainda está sendo terrível.

            Por conta desses fatos, passei os meses de julho e agosto sem entrar em contato de modo normal com as pessoas. Deixei de divulgar “Melancia e Coco Verde”, no SESC Ipiranga, “Poe, Edgar” no Centro Cultural Vergueiro e “Arapucaia” na praça Dom Oreone, três temporadas ótimas, todas com músicas minhas. “Melancia e Coco Verde” entrará em cartaz de novo daqui a duas semanas, num teatro lá no Jabaquara, e assim que eu tiver os dados certinhos, dessa vez vou divulgar como puder.

            Voltando à “bundamolice” do Luciano Huck, quero deixar claro que ele não perdeu nada, mas eu sim. Ele perdeu, talvez, um tipo de virgindade, sofrendo, sem dúvida alguma, uma violência. Mas de resto, ele saiu completamente ileso. E ainda aproveitou o ensejo para aparecer um pouco mais, o que certamente deve ter sido um bom negócio, ainda mais levando em consideração que este meu chará é realmente muito bom nisso. Ora, as pessoas que já passaram por uma perda relativamente maior, que perderam materialmente algo muito importante, sabem que a situação é decisiva: desanimar ou animar mais que antes. Huck animou mais que antes, muito bem, mas para ele estava fácil. Outras pessoas, eu inclusive, tivemos e temos que lidar com isso, aplicando muito mais energia. Não vou, em hipótese alguma, dizer que foi bom ter sido roubado, que isso me fez reagir positivamente ou algo assim. Não. Certamente teria sido melhor passar sem mais essa. Mas, por princípio, se eu quero mesmo fazer valer as coisas nas quais eu acredito, o esforço que venho fazendo desde sempre e tudo o mais, então tive que me dizer: “vou sair dessa melhor do que eu estava quando entrei”. Qualquer outra atitude seria puxar para baixo, e aí a queda poderia se tornar grande demais. Vemos gente por aí que, depois de um segundo golpe, um terceiro, ou mais golpes, muitas vezes golpes bem mais fortes do que esses que eu levei, de repente não conseguem mais, e caem. E caem demais. E que dizer? Que são fracas? Que são perdedoras? Que não têm fé? Que a vida é assim? Que é uma seleção natural? Que deve ser cármico? Nada disso. O que é, só quem está lá, passando por isso, é quem sabe. Os de fora estão fora, sabem que é difícil e ruim, mas não passa disso. É preciso, pura e simplesmente, respeitar. Se alguém cair de vez, respeitar. Talvez até mesmo admirar, se tivermos chance de olhar mais de perto. Ninguém vale mais ou menos que os outros, e perder ou ganhar algo não muda nosso valor intrínseco. Já, o valor das realizações, é o das realizações, e não o do realizador. Sem essa distinção, a humanidade permanece dividida em castas, talvez para sempre, ou até seu fim.

 



Escrito por Luciano Carvalho às 15h26
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